Dor Miofascial e Cefaleias Primárias

Domingo, 13 de Setembro de 2020 Leitura: 4 minutos

Dor Miofascial e Cefaleias Primárias

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Síndrome de dor miofascial: pontos gatilho miofasciais e seu papel no tratamento de pacientes com cefaleia.


Mecanismos vasculares, centrais e periféricos têm sido ligados à patofisiologia das cefaleias primárias, em especial a migrania(1). A ocorrência de dolorimento pericraniano espontâneo e à palpação em pacientes com migrania é descrita na literatura(2), o que leva à suposição de que mecanismos miofasciais possam estar ligados à gênese da migrania de alguma maneira(3).

O conhecimento sobre a dor miofascial ganhou impulso a partir da década de 1950 a partir dos trabalhos de alguns médicos, entre eles a Dra Janet Travell, que depois veio a escrever o livro que é referência na área até os dias de hoje(4). A dor miofascial é fonte de nocicepção concomitante a várias condições clínica, desde quadros de lombalgia5 até disfunções orofaciais6, por exemplo. Como o próprio nome diz, dor miofascial significa dor proveniente de músculos e tecidos conjuntivos e um de seus atributos principais é a existência de pontos gatilho miofasciais. Esses pontos gatilho são pontos irritáveis dentro de bandas anormais de músculo ou fáscia que, quando pressionados, causam dor local e dor referida com padrões específicos para cada músculo, e que quando palpados exacerbam ou reproduzem a experiencia de dor reportada pelo paciente(7).

Quando comparamos controles saudáveis com pacientes diagnosticados com migrania, a coexistência de dor miofascial parece correlacionar-se tanto com a gravidade das crises, quanto com a cronicidade da cefaléia (8–11). A abordagem concomitante da dor miofascial em pacientes que realizam tratamento para quadros crônicos de cefaleia também parece promover benefícios adicionais no controle da doença(12). Os músculos mais comumente afetados por dor miofascial em pacientes com cefaleia são trapézio, esternocleidomastóideo, temporal e masseter(2,11).


Entre especialistas em Cefaleia, o tratamento concomitante da dor miofascial em pacientes com cefaleia do tipo tensional e migrania pode chegar a 81.5% e 67.7% dos pacientes tratados, respectivamente. Assim, em publicação recente(11), a American Headache Society concluiu que muitos cefaliatras utilizam o tratamento da dor miofascial no auxilio do controle da dor e incapacidade em pacientes com cefaleia de diferentes origens e, apesar da relativa escassez de dados sobre eficácia, quando realizado de maneira apropriada, com adequada seleção de pacientes e com as conhecimento anatòmico e experiência técnica adequadas, o agulhamento miofascial parece ter um papel no tratamento adjuvante das cefaléias primárias(11).


Portanto, a disfunção miofascial, além de ser clinicamente relevante em diversas condições de dor musculoesquelética(7,13), parece ter algum papel no tratamento adjuvante de cefaleias primarias como a migrania3. Assim, deve-se considerar a contribuição dos pontos-gatilho miofasciais para a dor e incapacidade do paciente através de um histórico médico cuidadoso e de um exame físico específico. Em geral, pacientes com pontos-gatilho miofasciais se beneficiarão de um plano de tratamento multimodal, incluindo o agulhamento miofasical e técnicas de terapia manual(13).

 

1. Andreou, A. P. & Edvinsson, L. Mechanisms of migraine as a chronic evolutive condition. J. Headache Pain 20, 117 (2019).
2. Ashina, S. et al. Prevalence of neck pain in migraine and tension-type headache: a population study. Cephalalgia Int. J. Headache 35, 211–219 (2015).
3. Do, T. P., Heldarskard, G. F., Kolding, L. T., Hvedstrup, J. & Schytz, H. W. Myofascial trigger points in migraine and tension-type headache. J. Headache Pain 19, 84 (2018).
4. OCS, J. M. D. P. D., Fernández-de-Las-Peñas, C., Finnegan, Mi. & Freeman, J. L. Travell, Simons & Simons’ Myofascial Pain and Dysfunction: The Trigger Point Manual. (LWW, 2018).
5. Lisi, A. J. et al. Deconstructing Chronic Low Back Pain in the Older Adult-Step by Step Evidence and Expert-Based Recommendations for Evaluation and Treatment: Part II: Myofascial Pain. Pain Med. Malden Mass 16, 1282–1289 (2015).
6. Fernández-de-las-Penas, C. & Svensson, P. Myofascial Temporomandibular Disorder. Curr. Rheumatol. Rev. 12, 40–54 (2016).
7. Shah, J. P. et al. Myofascial Trigger Points Then and Now: A Historical and Scientific Perspective. PM&R 7, 746–761 (2015).
8. Calandre, E. P., Hidalgo, J., García-Leiva, J. M. & Rico-Villademoros, F. Trigger point evaluation in migraine patients: an indication of peripheral sensitization linked to migraine predisposition? Eur. J. Neurol. 13, 244–249 (2006).
9. Fernández-de-Las-Peñas, C., Cuadrado, M. L. & Pareja, J. A. Myofascial trigger points, neck mobility and forward head posture in unilateral migraine. Cephalalgia Int. J. Headache 26, 1061–1070 (2006).
10. Ferracini, G. N. et al. Myofascial Trigger Points and Migraine-related Disability in Women With Episodic and Chronic Migraine. Clin. J. Pain 33, 109–115 (2017).
11. Robbins, M. S. et al. Trigger point injections for headache disorders: expert consensus methodology and narrative review. Headache 54, 1441–1459 (2014).
12. Gandolfi, M. et al. Does myofascial and trigger point treatment reduce pain and analgesic intake in patients undergoing onabotulinumtoxinA injection due to chronic intractable migraine? Eur. J. Phys. Rehabil. Med. 54, 1–12 (2018).
13. OCS, J. M. D. P. D., Fernández-de-Las-Peñas, C., Finnegan, Mi. & Freeman, J. L. Travell, Simons & Simons’ Myofascial Pain and Dysfunction: The Trigger Point Manual. (LWW, 2018).

Palavras-chave: dor miofascial; cefaleia; enxaqueca
João Paulo M Bittar
Autor: João Paulo M Bittar
Medico especialista em Acupuntura MBA em Gestão Hospitalar pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) Editor do livro Manual Clínico de Acupuntura; Instrutor dos cursos de BLS, ACLS e PALS da American Heart Association (AHA) desde 2008; Vice Presidente do Colégio Médico de Acupuntura de Goias

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