Corrida, dor muscular tardia e agulhamento miofascial

Sexta, 3 de Abril de 2020 Leitura: 5 minutos

Corrida, dor muscular tardia e agulhamento miofascial

Estamos aqui preocupados com a situação do Globo e do país e respeitando o isolamento social, mas sonhando com a possiblidade de retorno das coisas que gostamos. Por isso, por enquanto, além da enxurrada de portarias e artigos sobre o SARS-Cov2, me contento com a leitura sobre meu esporte favorito: a corrida.

Ontem me deparei com o estudo conduzido pela divisão de Medicina Física e Reabilitação da Universidade de Utah[1].

Sabe-se que diversas abordagens foram testadas para a prevenção de dor muscular após exercício físico (DOMS – delayed onset muscle soreness), dentre eles uso de meias compressivas, intervenções nutricionais e AINEs. Mas todas essas alternativas não parecem demonstrar uma diminuição do evento. Assim, em geral são utilizadas medidas de controle do sintoma através de meios físicos como massagem ou termoterapia.

Será que o agulhamento miofascial teria influência nesse desfecho?

Essa foi a pergunta feita por Cushman e colaboradores [1]. Os pesquisadores compararam o efeito do agulhamento do tríceps sural e do quadríceps logo após uma corrida de longa distância (meia-maratona e maratona) com agulhamento falso (sham) na redução de dor muscular e ocorrência de câimbras dentro dos primeiros 7 dias após a prova. O procedimento de agulhamento foi realizado dentro da primeira hora pós corrida.

Os resultados não mostraram diferenças entre os grupos, e ainda, o grupo que recebeu o agulhamento apresentou dolorimento pós agulhamento nos primeiros 1 a 2 dias.

A pergunta que ficou na minha cabeça é se o agulhamento miofascial realizado ANTES da prova levaria a um desfecho diferente? 

No tratamento de pacientes com dor miofascial, com frequência observamos um efeito interessante de ganho de força e amplitude de movimento nos músculos que abordamos. Quem teve a oportunidade de fazer cursos como os do GEANF (www.acuneuro.com.br) ou mesmo algum curso sobre tratamento de dor miofascial, já deve ter observado que um dos efeitos mais imediatos e mesmo drásticos do agulhamento de um ponto gatilho latente ou de um musculo com disfunção miofascial é o ganho de força e da extensibilidade do músculo. Pra quem nunca presenciou isso, esse fenômeno clínico invariavelmente resulta numa exclamação (oh!!) conjunta do paciente e de todos os presentes.

A literatura tem exemplos de efeitos locais do agulhamento, como a redução dos níveis de substancia P e CGRP na região do ponto gatilho logo após o agulhamento, chegando a níveis similares àqueles dos tecidos não envolvidos[2].

Portanto é de se pensar que um agulhamento de pontos gatilho latentes de forma profilática (pré-competição) poderia contribuir com um melhor funcionamento muscular e de toda a cadeia cinética envolvida. Não foi dessa vez que tivemos respondida essa pergunta, mas continuamos esperando por novidades nessa área e quem sabe alguém, ou nós mesmos, nos animemos a conduzir o estudo.

 

[1] Cushman DM et al. Postrace Dry Needling Does Not Reduce Subsequent Soreness and Cramping—A Randomized Controlled Trial. Clin J Sport Med. 2020; 00:1-7

[2] Shah JP et al. Myofascial Trigger Points Then and Now: A Historical and Scientific Perspective. PM R. 2015; 7:746-761

 

Joao Eduardo M Teixeira
Autor: Joao Eduardo M Teixeira
Graduado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Residência Médica em Acupuntura no Hospital Regional de São José Homero de Miranda Gomes (HRSJ-HMG/SC). Especialização em Medicina Física e Reabilitação pela Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD / São Paulo - Brasil). Título de Especialista em Medicina Física e Reabilitação pela ABMFR e AMB. Diretor Científico do Colégio Médico de Acupuntura da Santa Catarina (CMASC)

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